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Netflix explora poder feminino na nova série ‘Girlboss’

Uma miúda irresponsável com um carro a cair aos bocados e incapaz de manter um emprego vagueia pelas lojas de roupa em segunda mão de São Francisco. Estamos em 2006, mas ela prefere o visual vintage dos anos setenta. Sophia, de 22 anos, decide abrir uma loja no site de leilões eBay para tentar lucrar com as peças usadas. Chama-lhe “Nasty Gal Vintage” e cria, acidentalmente, um dos maiores impérios de comércio online na indústria da moda.

Esta é a história verdadeira de Sophia Amoruso, que chega este fim de semana aos televisores portugueses através do Netflix. Em ‘Girlboss’, uma série que oscila entre o drama e a comédia, Sophia é interpretada por Britt Robertson (Tomorrowland, A Dog’s Purpose), sem a tentação de a transformar numa heroína.

A série é baseada no livro ‘#Girlboss’ que Sophia Amoruso publicou em 2014, uma espécie de autobiografia misturada com conselhos e lições para futuras empreendedoras. A escrita é simples e a história interessante – estamos a falar de alguém que se enfiava em contentores do lixo à procura de comida e construiu um negócio de milhões de dólares em pouco tempo. Mas para a transformar numa série, foi preciso tomar algumas liberdades criativas.

“Ela fez uma fortuna a vender coisas no eBay, mas alguém metido em casa à frente do computador não dá uma série muito interessante”, confidenciou Kay Cannon, responsável pelo argumento, numa conversa com o Delas.pt em Hollywood. A escrita de Kay Cannon é brilhante porque não faz nenhum esforço para tornar Sophia numa super-mulher dos negócios, numa heroína de que é fácil gostar. Na verdade, a personagem é muito real, cheia de defeitos e egoísmo, mostrando que é possível fazer asneira, falhar em grande, e mesmo assim seguir em frente.

“A série é sobre o negócio e um estudo do caráter de Sophia, a forma como ela ultrapassou obstáculos”, explica Kay. “Há uma mensagem bem definida: ser o patrão da sua própria vida.”

Sophia é um exemplo de como todos passamos por um momento em que estamos perdidos, zangados, tristes, sem saber como encontrar aquilo que gostamos de fazer. “Não quer dizer que tenhamos de ser mesmo um patrão, mas tomar controlo da vida que está à nossa volta”, sublinhou Cannon.

Girlboss

A moda é um tema central da série, que tem um guarda-roupa fenomenal criado por Audrey Fisher. Todas as peças foram desenhadas por ela ou encontradas em lojas em segunda mão, depois de uma viagem alucinante ao armário da própria Sophia Amoruso, que é produtora executiva da série. “Ela tinha uma forma muito icónica de se vestir”, declarou Fisher, que nos levou a espreitar parte do guarda-roupa e mostrou os quadros de inspiração montados antes das gravações. Uma componente interessante é que toda a gente, salvo Sophia e a sua amiga Annie (Ellie Reed), se veste com a moda de 2006. E caramba, que tempos esquisitos foram aqueles.

“Descobri algo de muito interessante no processo de não apenas encontrar uma peça porreira, mas ver nela algo diferente, ser inspirada por ela, e depois transformá-la e fazê-la ficar bem em qualquer pessoa”, descreveu Britt Robertson, elogiando as peças e o conforto dos “tacões” que teve de usar na série.

Mais do que moda

Apesar de tudo, ‘Girlboss’ não é sobre moda (como “O Diabo Veste Prada” não é sobre desfiles). Não é sequer, ou apenas, sobre poder feminino. “A miúda em Girlboss, para mim, sempre foi a juventude e não o sexo”, descreve Kay Cannon. “A razão pela qual a história da Sophia é tão extraordinária é que ela fez isto tudo com vinte e poucos anos.” Aos 27, já valia 180 milhões de dólares. Escreveu um best-seller, criou uma Fundação, é produtora executiva numa série da Netflix e está a escrever outro livro.


Conheça o percurso de Amoruso


“Estamos numa altura crucial para as mulheres”, afirmou Cannon. Os Estados Unidos não elegeram a primeira mulher presidente, mas existe uma mudança de discurso, “em que as mulheres podem agora diz algo e fazer algo sem se preocuparem se gostam delas ou não.” Mais:

“Estamos a dar permissão às jovens mulheres para que se sintam zangadas, chateadas, felizes, tristes e mostrem isso.”

Parece trivial, mas é uma discussão permanente. “A Kay está a permitir às mulheres pegarem nisto. Não temos de nos conformar, não temos de ser esta pessoa que parece perfeita aos olhos dos outros”, sintetizou Britt Robertson.

Ellie Reed, que interpreta Annie, teve a mesma perceção, “esta ideia de não ter vergonha de quem se é.”

Curiosamente, quando a produtora Charlize Theron levou o conceito a diferentes cadeias de televisão, os chefes (homens) disseram que era preciso mudar o nome da série. Mas ela não cedeu; fincou o pé e conseguiu levar avante exatamente o que Kay Cannon tinha concebido. Os personagens masculinos são secundários mas importantes. “Fazemos o que todos os homens fazem na vida real. As mulheres fazem-nos sentir que controlamos tudo quando, na verdade, não controlamos nada”, disse Alphonso McAuley, ou Dax, o namorado de Annie na série.

Girlboss

“A história da Sophia dá outra perspetiva sobre a ambição de uma mulher, de uma forma que Hollywood não mostra ou tem mostrado pouco”, estabeleceu. “Precisamos de mais histórias como estas, ajuda a mudar o ponto de vista.”

Aquilo que nem Kay, nem Britt, nem Alphonso sabiam quando acabaram de gravar esta série é que a Nasty Gal implodiria pouco depois. Sophia foi forçada a sair da empresa, que declarou bancarrota e foi vendida em fevereiro a um retalhista britânico. É um final infeliz e inesperado para uma história até então de sucesso. Mas “Girlboss” é também uma história de falhanços, não apenas de sucessos. Só por isso, vale a pena ver.

Ana Rita Guerra