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Anorexia: “Deitava-me a chorar porque tinha de comer no dia seguinte”

A Mafalda é dona de um sorriso contagiante e de uns olhos vivos que ainda se emocionam quando fala da anorexia que lhe foi diagnosticada aos 17 anos. A cara redonda escondeu durante muito tempo a magreza extrema que se tinha apoderado do seu corpo. “Só quando as pessoas me viam despida é que tinham noção do meu peso. Durante algum tempo eu não sentia falta de energia e isso também ajudava a disfarçar. Ainda hoje não sei onde ia buscar força, porque havia dias em que eu não comia praticamente nada! Ia e voltava a pé para a escola, chegava à cama e fazia abdominais na cama, não para ter uma barriga perfeita, mas para queimar o pouco que tinha comido.”


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Alcançar um corpo perfeito, ou um ideal de beleza nunca foi o objetivo da Mafalda que nos confessa que “nunca quis ser modelo ou ter uma beleza estereotipada. Nunca foi esse o meu objetivo nem sequer subconscientemente. Nunca fui de ver sites de moda, nem canais de moda, nem nada disso, não foi nada disso que me levou a ficar doente.” Na verdade o que a levou à anorexia foi a frustração que sentia por não conseguir ter notas tão altas como desejava.

” Estudava para ter as notas que queria e não conseguia. Era uma coisa que não conseguia controlar e por isso virei-me para o que poderia controlar. Precisava de controlar alguma coisa na minha vida e foquei-me no peso porque era uma coisa que eu conseguia medir. Comecei a controlar o que comia, e conseguia finalmente controlar alguma coisa. Pensava ‘agora perdi mais 200gr, agora perdi mais 500gr’ e isso passou a ser sempre o objetivo dos meus dias.”

Evitar comer era só uma das partes deste processo de autocontrolo, apesar de nunca ter vomitado, nem ter tomado compridos, qualquer altura era um pretexto para queimar calorias. “Eu não parava as pernas quando estava sentada, estava sempre a pensar nas calorias que estava a queimar. Voltava para casa da escola e dava três voltas ao quarteirão antes de ir para casa, andava ali às voltas e ninguém percebia. Ia à casa de banho e punha-me a fazer abdominais. Eu não parava, isto estava sempre na minha cabeça e não era para ser magra, era porque tinha um objetivo e naquele momento estava a conseguir controlar aquilo.”

Foram estas pequenas coisas que se tornaram um hábito, para além das mentiras constantes em relação à comida que maior parte das vezes era escondida ou deitada para o lixo, que levaram tempo a ser descobertas porque “se faz tudo para esconder a anorexia e aprende-se realmente a esconder. O corpo habitua-se e tu entras num regime em que ninguém se apercebe do que se está a passar, nem tu percebes naquilo em que estás a entrar.”

“Esta é daquelas coisas que tu achas que nunca te vai acontecer a ti, achas sempre que estás só a fazer dieta, que o teu único objetivo é só perder uns quilinhos. Eu nem sei a altura em que me apercebi que estava doente…Havia alturas em que parecia que caía em mim e que percebia que o que estava a fazer não era normal, mas depois comer custava-me tanto. Para além de que nunca me vi magra… escanzelada, que era como toda a gente dizia que eu estava. Só percebia que estava magra, quando me pesava. Por isso achava sempre que não tinha nada, e continuava a ter os comportamentos anoréxicos que já eram um hábito. Até ao dia em que fui descoberta e me mandaram para o médico.”

Quando foi descoberta não ofereceu resistência, teve “um momento de lucidez” e decidiu curar-se. Mas o caminho da recuperação foi uma das coisas mais dolorosas pelas quais passou: “Eu faltava à primeira aula da manhã, porque tinha de tomar o pequeno-almoço até ao fim e fartava-me de chorar porque não conseguia. O meu pai zangava-se comigo porque achava que era eu que não queria comer, mas a verdade é que eu não conseguia comer! Não era uma questão de querer ou não… eu não conseguia. Parecia que a comida me ia fazer mal, era como se me estivessem a obrigar a tomar um veneno, eu sentia que aquilo me ia fazer mal e não queria, chegava a ser doloroso porque o meu corpo já não estava habituado a digerir.”

“Eu deitava-me à noite a chorar, só de pensar que tinha de tomar o pequeno-almoço no dia seguinte. É uma angústia que está sempre, sempre, sempre contigo.”

O peso normal da Mafalda antes de estar doente era de 58Kg, tendo chegado a pesar 43 Kg. O tratamento durou quase dois anos e hoje, passados cinco anos, confessa que ainda não passa um dia sem se pesar e que lhe faz muita confusão que alguém o consiga fazer. Nos últimos anos viveu em Abu Dhabi, Barcelona e na Grécia e em cada um desses sítios “das primeiras coisas que comprei foi uma balança. Não é para mostrar um corpo esbelto, nem nada disso, é só uma coisa que eu, ainda hoje, tenho de ter controlada.”

Quando lhe perguntamos se sente curada Mafalda responde com cuidado: “Sinto-me curada porque tomei consciência do limite. Mas contínuo sem me ver magra, nunca me vejo magra… Se eu me deixasse ir, se não tivesse esta consciência do limite entre o que é normal e o que é um risco, voltava ao controlo obsessivo do peso, não tenho qualquer dúvida disso. Penso muito nisso, penso muito no peso, não penso como anorexia, nem como uma doença que tenha. Mas às vezes dou por mim a fazer coisas e a pensar em coisas, que tenho de me obrigar a travar. Foram-me dadas as ferramentas para lutar contra isto. Não sei se algum dia vou deixar de sentir isto, mas até agora não passou e já se passaram cinco anos.”

 

Margarida Brito Paes