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Em ‘Big Little Lies’, a HBO mostra a ambição feminista da nova face da televisão

Nas primeiras cenas da nova série da HBO, Big Little Lies, é fácil cair na tentação dos clichés. Aparece-nos um conjunto de mulheres que oscila entre o fútil e irritante e o hippie e misterioso, numa cidade de praia onde toda a gente parece ter uma vida de sonho. O peso das estrelas é suficiente para aguçar a curiosidade sobre a nova produção, que estreia de domingo para segunda no TVSéries – Home of HBO e vai passar em horário nobre às segundas-feiras, às 22h45. Temos Reese Witherspoon e Nicole Kidman em dois dos papéis principais, o que só por si seria extraordinário, tendo em conta que ambas são estrelas de cinema e não de televisão.

Mas vai muito além disso. As duas atrizes são as mentoras e produtoras executivas da série, que foi criada para TV a partir do livro de Liane Moriarty com o mesmo nome. Conta as histórias de cinco mulheres numa zona abastada: Madeline Mackenzie (Reese), Celeste Wright (Nicole), Renata Klein (Laura Dern), Jane Chapman (Shailene Woodley) e Bonnie Carlson (Zoe Kravitz). Os homens, neste caso, são secundários – maridos, amantes ou namorados. Nada é o que parece no início. O casamento perfeito revela-se podre, o passado de uma das mulheres tem segredos terríveis e a noção de sucesso é manchada pela culpa. Os desempenhos são brilhantes. Reese consegue cativar a simpatia dos espectadores e ao mesmo tempo fazê-los rebolar os olhos; Nicole tem um papel fisicamente exigente que em certas alturas custa muito ver. Laura Dern encarna na perfeição o drama das mães que têm uma carreira de sucesso e todas as críticas, inveja e problemas associados a isso.


Leia a entrevista das produtoras desta série na íntegra.


A autora do livro é australiana, tal como Nicole Kidman, e as histórias desenrolam-se na Austrália. Foi por isso que Reese e Nicole trouxeram para o projeto o lendário David E. Kelley, criador de séries monumentais como Ally McBeal e Boston Legal, para migrar a ação da Austrália para Monterey, Califórnia, e adaptá-la à realidade americana.

“É raro ler alguma coisa com personagens femininas tão boas”, disse Nicole Kidman num encontro intimista em Los Angeles, ao lado de Reese Witherspoon. A ideia foi, desde o início, torná-la numa série limitada e depois vendê-la ao parceiro certo. “Fomos muito estratégicas”, disse Reese, porque queriam proteger a sua integridade criativa e dá-la a quem soubesse promovê-la como deve ser.

É que Big Little Lies mexe com muitos tópicos controversos e quentes na atual conjuntura: violência doméstica, violação, mães solteiras, divórcio, bullying na escola, mães que trabalham. É um drama com toques de comédia e ao mesmo tempo de thriller, já que toda a história revolve em torno de um assassinato. Mas os espectadores não descobrem, até ao último episódio, quem morreu e quem matou. A série decorre durante sete episódios de quase uma hora cada, e no final de cada um é quase impossível não querer ver o próximo. Kidman confirma que este foi o objetivo: fazer um filme de sete horas. É por isso que é difícil falar de episódios específicos ou discutir a série antes de a ver até ao fim.

“Queremos que as pessoas assistam juntas à série”, disse a atriz no encontro. “Essa é aquela coisa que se perde quando se faz televisão: não temos um grupo de pessoas a assistirem a uma coisa em conjunto.”

As cenas de violência doméstica, que são recorrentes, são muito difíceis de ver. “Não queríamos trivializar o abuso. É uma relação complicada”, admitiu David E. Kelley. O diretor Jean-Marc Vallée, sentado ao lado de Kelley numa mesa redonda, explicou o cuidado que houve ao filmar essas cenas. “Tentei não interferir, deixá-las ser reais. Não há corte de planos nessa cena.” Filmaram sem ensaios, o que explica porque é que as cenas parecem tão reais e dolorosas. Nicole Kidman confessou que andava cheia de nódoas negras reais. Depois das filmagens, chegava a casa e metia-se na banheira a chorar.

Kelley fala também do duplo standard que as mulheres sofrem em comparação com os pais. “A personagem de Laura Dern sente-se vitimada e condenada por ser uma mãe trabalhadora”, explica. “Ainda é perfeitamente aceitável para os homens focarem-se nas suas carreiras. Recebem a medalha de melhor pai se aparecerem num jogo de futebol. Mas Deus nos livre que o CEO seja uma mulher que não está presente todas as vezes que o miúdo esfolha o joelho.”


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Rita Guerra, em Los Angeles