Subir

Rapper brasileira denuncia os abusos sobre empregadas domésticas

Joyce Fernandes, de 31 anos, foi empregada doméstica até 2009. Hoje tem outra vida. É professora e rapper, com o nome artístico de Preta-Rara e mais de 18 mil fãs no Facebook, mas nunca esqueceu o que sofreu quando desempenhava a sua antiga profissão. No final de junho, enquanto cozinhava em casa, no município de Santos, a 80 quilómetros de São Paulo, no Brasil, decidiu que iria fazer uma publicação no Facebook a recordar uma das experiências mais desagradáveis que teve enquanto empregada doméstica.

“Joyce, você foi contratada para cozinhar para a minha família, não para si. Por favor traga a sua própria comida e, se possível, coma antes de nós na mesa da cozinha. Não é por nada, é só para manter a ordem na casa”, escreveu a antiga empregada doméstica na sua página pessoal de Facebook, recordando um dos desagradáveis episódios. No final do texto escreveu a hashtag #EuEmpregadaDoméstica.


Leia também o artigo: App dá respeito e mais 60% de salário a empregadas domésticas


A publicação foi um sucesso. Quatro horas depois tinha mais de mil “gostos”, foi partilhada centenas de vezes e recebeu centenas de comentários e mensagens privadas. Perante o sucesso, a rapper teve a brilhante ideia de criar uma página com o nome Eu Empregada Doméstica com o objetivo de receber testemunhos de outras mulheres e denunciá-los nas redes sociais. Os primeiros testemunhos não tardaram a chegar.

“A minha avó trabalhava para uma senhora desde as 9:00 até perto das 19:00. Enquanto a senhora almoçava, a minha avó tinha de comer arroz frio e cascas de tomate. Nunca lhe ofereceu um prato de comida”, podia ler-se numa das primeiras denúncias.

A página, com pouco mais de um mês de existência, conta com mais de 114 mil seguidores.

Joyce Fernandes, a criadora da página Eu Empregada Doméstica. Fotografia de Facebook Preta-Rara

Joyce Fernandes, a criadora da página Eu Empregada Doméstica. Fotografia de Facebook Preta-Rara

5,9 milhões de brasileiras são empregadas domésticas
Há seis milhões de brasileiros a trabalhar em serviços domésticos no Brasil. A grande maioria – 5,9 milhões – são mulheres. Nos EUA, onde a população é um terço maior que a brasileira, existem entre 1,8 e 2,6 milhões. Já na União Europeia, com mais do dobro da população do Brasil, há registo de 2,5 milhões, segundo dados da Organização Internacional do Trabalho.

O governo de Dilma Rousseff já conseguiu garantir um salário mínimo e limite de horas extra, mas ainda muitas famílias continuam a escravizar as suas empregadas domésticas.

“Creio que esse número tão alto de relatos representa a voz de empregadas domésticas que há muito tempo queriam falar sobre isso e não tinham um meio específico. A minha recordação foi o gatilho para acordar outras recordações e abrir esta discussão”, explicou Joyce Fernandes à agência AFP.

Página discute lugar da mulher negra na sociedade brasileira
As experiências partilhadas pelas empregadas domésticas e familiares serviram de mote para outro debate, sobre o lugar da mulher negra na sociedade brasileira. No país, mais de 50% da população é negra ou mulata e foi um dos últimos países do mundo a abolir a escravatura, em 1888. Essa mudança tardia, segundo Joyce Fernandes, ainda é bastante palpável na discriminação e pobreza que afetam os negros no Brasil.

“Algumas pessoas reclamaram na página que a maioria dos relatos eram de mulheres negras, mas a grande maioria de empregadas domésticas no Brasil são negras. E isso não pode continuar a ser assim: não pode ser uma profissão ‘hereditária'”, sublinha a rapper, que sentiu isso na pele: a avó, a mãe, as tias e as primas são ou foram empregadas domésticas.

No entanto, nem todos os relatos partilhados partilhados na página Eu Empregada Doméstica são de tristeza e revolta. Também há quem partilhe casos felizes e de esperança para todas as mulheres dessa profissão.

“‘Vejo que gostas de ler. Já pensaste em continuar a estudar?’, perguntou-me a minha patroa Regina, a única que me incentivou a estudar. Quando a encontrei algum tempo depois, disse-lhe que já era professora e chorámos juntas”, recordou Joyce Fernandes.

Cátia Carmo