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“Porta-voza”: uma deputada contra o machismo da língua, diz ela

Irene Montero reacendeu o debate sobre o sexismo na linguagem. A parlamentar do partido espanhol Unidos Podemos defendeu a semana passada a utilização do termo “porta-voza”, como forma de contribuição para o avanço da igualdade de género, através da língua falada. Montero sustenta que a língua espanhola é machista e, “ainda que soe estranho” é preciso usar este variável para “dar visibilidade às mulheres”.

O termo “porta-voza”, em vez da palavra porta-voz foi utilizado por Montero durante uma conferência de imprensa, na passada terça-feira, 6 de fevereiro. A partir daí, a polémica instalou-se.

A RAE Real Academia Espanhola, que tutela a utilização da língua espanhola e a criação de novos termos veio, no seguimento da controvérsia instaurada por Montero, através da sua conta de Twitter esclarecer que o substantivo “porta-voz” é um substantivo comum para os dois géneros e que, portanto, não precisa de variante feminina. Segundo a instituição que avalia cientificamente a formação das palavras, o género é dado pelo determinante artigo definido: “a porta-voz” ou “o porta-voz”.

A porta-voz (ou “porta-voza”) do Unidos Podemos, acabou por reagir às declarações da RAE através da mesma rede social, desprezando os critérios linguísticos e acusando a instituição de ser composta maioritariamente por homens.

Também Íñigo Méndez de Vigo, ministro da educação e porta-voz do governo, criticou o uso do vocábulo pela política e psicóloga, limitando-se a afirmar – ironicamente – que o governo iria melhorar o seu sistema educativo. Citada pelo jornal El País, Montero respondeu que o ministro “deveria tomar o exemplo de Unidas Podemos, de todo o movimento feminista e da cidadania, e saber que, ainda que possa parecer estranho e, por vezes, chato, estão empenhadas em defender a igualdade e não uma sociedade que não dá visibilidade às mulheres”.

“Os homens têm vozes e as mulheres ‘vozas’?”, questionou Carlos Herrera

A par da RAE e do ministro, também Carlos Herrera, jornalista da rádio espanhola COPE, protagonizou a onda de críticas apontadas à deputada. Durante uma emissão na passada sexta-feira, 9 de fevereiro, Herrera sugeriu com ironia: “Agora, conclui-se que o feminismo significa que todas as palavras terminem com ‘a’, e aquelas que já acabem em ‘a’, têm que ser reforçadas”. “Os homens têm vozes e as mulheres ‘vozas’?”, questionou o jornalista.

Por sua vez, de acordo com informações divulgadas pelo mesmo jornal, o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) defende que se possa usar o termo em questão, porque a linguagem pode ser utilizada como instrumento de luta pela igualdade entre mulheres e homens.

A controvérsia ocorre em plena efervescência do movimento feminista num país onde a Lei da Igualdade de 2007 não é respeitada”, lê-se num artigo publicado pelo El País sobre a matéria. “Espanha, por exemplo, está há mais de três anos a ignorar as recomendações da União Europeia para alcançar a igualdade salarial”, acrescenta o jornal.

Em Portugal estalou, em 2016, uma polémica sobre sexismo na língua quando o Bloco de Esquerda recomendou a alteração da designação do Cartão de Cidadão para Cartão de Cidadania, por considerar que o nome do documento “não respeita a identidade de género de mais de metade da população portuguesa”. Ao contrário da presente polémica em Espanha, a palavra que motivou esta celeuma, “cidadão”, é, de facto, um substantivo masculino e a proposta do BE passava para passagem da designação masculina para uma de género neutro, de resto, como acontecia com o documento de identificação nacional anterior, o Bilhete de Identidade.

Imagem de destaque: Reuters

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