Cancro da mama: “Constatar que se pode morrer fez-me querer viver”

Chamo-me Maria José Vale, tenho 50 anos e vivo na Quinta do Anjo, em Palmela. Há precisamente três anos foi-me diagnosticado cancro de mama. Três meses depois, em janeiro de 2015, fiz uma mastectomia total à mama esquerda. Como tudo começou? Não sei…

Parte I – O diagnóstico

O meu peito sempre foi denso e propenso a ter nódulos, e já tinha feito duas biópsias em anos anteriores. Apesar de saber isso, fui, com o corre-corre do dia-a-dia, deixando os exames anuais para trás, leia-se a mamografia ou a ecografia mamária. Por insistência da minha médica, fui fazer os exames nesse tal mês de outubro, e tinham já passado dois anos sobre os últimos.

A médica que me fez os exames insistiu muito para que eu os fosse mostrar ao meu médico. Ligou-me inclusivamente e tornou a insistir. Não me disse mais nada. Mas quando uma médica que não nos conhece de lado nenhum e que tem imensos pacientes a quem faz exames nos telefona, é sinal de alguma coisa.

Decidi, então, marcar a consulta num especialista da mama. É detetado um caroço na axila. Segue-se então uma biópsia e o resultado indica que existem metástases. Simples: há um cancro algures. Por indicação do médico, seguem-se duas biópsias à mama esquerda, que nada acusam. Outra médica, de quem fiquei amiga, diz-me que de facto alguma coisa existe apesar de nada vir nos resultados. Incansável, insiste e, escutadas mais três opiniões, surge o consenso: remoção total.

Uma vez removido, todo o material vai para análise e verifica-se de facto que havia três pequenas incidências cancerígenas na mama esquerda.


Recorde os testemunhos da atriz Carla Andrino, de Marta Leão e de Ana, de Carla Amorim, de Eugénia Amaro.

Anónimas que se juntam a famosas como a argumentista brasileira Gloria Perez, as atrizes Julia Louis-Dreyfus e OliviaPaige Newton-John ou a manequim Paige More.


O meu marido deixa tudo pendurado e acompanha-me a todas as consultas, a família, os filhos de 14 e 12 anos acompanham o processo. É bom saber que temos quem se preocupa connosco e nos ajuda a tomar decisões que são para a vida e nos atormentam os pensamentos.

Não vale a pena esconder, nem fazer reservas. A vida é isto! É a partilha dos bons e maus momentos que aglutina a família. Depende muito de cada um, mas se eu lhes peço para me contarem tudo e não me esconderem nada, tenho de ser eu a dar o exemplo.

Parte II – O tratamento

Passada a cirurgia, há a janela de oportunidade para iniciar o tratamento. Usualmente quimioterapia após as 4 e as 6 semanas, dependendo do grau, seguida de radioterapia.

O meu irmão e a minha cunhada aconselham-nos, a mim e ao meu marido, a ouvir um outro médico quanto ao tratamento a seguir. A medicina e o conhecimento evoluem muito rapidamente e poderá haver novos tratamentos ou procedimentos.

Assim o fazemos, o que nos encaminha para uma outra instituição que propõe o teste ao genoma. Ou seja, não é mais do que estudar a célula cancerígena e daí indicar qual o grau de risco de recidiva (desenvolver-se novamente este cancro em alguma outra parte do nosso organismo) e dar a indicação de resposta dos tratamentos disponíveis. Seguem-se duas a três semanas de angústia para saber que resultados dará o teste. Enquanto se espera, começo a “googlar” para saber se o teste é fiável e para ouvir opiniões de especialistas (porque raio não nos falaram antes nisto?). Chega o resultado. Seis por cento de recidiva. Com os resultados deste exame e o tratamento proposto da médica oncologista (o tamoxifeno tomado diariamente e radioterapia), chegamos a uma probabilidade de 3%.


As análises sanguíneas e o teste simples que pode salvar vidas


Segundo o teste, a quimioterapia iria baixar a probabilidade de recidiva até aos 2%. Dado que a probabilidade de morrer atropelada numa passadeira se fica pelos 8%, vamos então avançar com esta proposta de tratamento.

Para viver que seja com qualidade. Segue-se a ronda por todos os médicos anteriores a dar nota disto, desmarcar tratamentos já marcados de quimioterapia no outro hospital e avançar com este novo modelo. São tempos de angústia, tomadas num curto período de tempo, nunca sabendo se será a opção certa, se o tal teste é de fiar. No entanto, arriscamos. A vida é feita de escolhas. Boas ou más, nunca saberemos porque as alternativas ficam sempre por validar.

Assumo, então, que devo seguir os tratamentos propostos e, ao mesmo tempo, estar atenta a atravessar as estradas.

Parte III – Viver com cancro

Viver com cancro é reafirmar a vida. É o tomar de consciência para assumir as rédeas da vida. Pode parecer cliché mas constatar que se pode morrer fez-me querer viver. É o viver com paz, é o ter compaixão, é o apreciar dos pequenos detalhes, é o saber desfrutar do agora.

Não abrandei o ritmo de vida de vida, continuo a não fazer o exercício que queria e sei que tenho de regrar mais o tipo de alimentos que ingiro, mas aprecio cada momento e não me escuso a comer um torresmo de vez em quando. Zango-me à mesma, tenho ansiedades, estou stressada, mas mais consciente de tudo o que se passa ao meu redor.

Já fiz duas cirurgias para reconstrução e tenho mais uma para fazer. Dou graças ao seguro que tenho, pois permite-me fazer escolhas que de outra forma não poderia, eu sei. Estou eternamente grata ao meu marido que me acompanha sempre, e à família que me apoia: filhos, pais, sogros, irmão e cunhados incluídos. Amigos próximos que nos dão a alegria das visitas e dos reforços de logística.

Estou agradecida a quem me acompanha no trabalho e nos negócios, que soube dar conta do recado na minha ausência prolongada. Continuam os altos e os baixos da vida mas, sendo com moderação, é isso que dá sabor e intensidade à nossa existência.


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Sei que, durante anos, terei de tomar comprimidos todos os dias. Passei dois anos a tomar injeções todos os meses. Fiquei sensível com a radioterapia. No entanto, sinto-me uma privilegiada porque vejo a vida com outros olhos, posso contar com o apoio de tantos e porque aprendi tanto…

Parte IV – A mensagem

As células cancerígenas não são mais do que as nossas células, mas com um defeito. Estas não se autodestroem e continuam a reproduzir-se. Criam-se, assim, as massas tumorais que vão crescendo.

Nem todos os cancros são iguais ou são no mesmo sítio. Nem todos os organismos respondem aos tratamentos da mesma forma. Cada vez mais há novos tratamentos, meios de diagnóstico, mais conhecimento sobra as causas e as formas de evitar estas células defeituosas.

Até agora ainda não se descobriu a cura. O cancro, nalgumas situações, já é considerado como doença crónica. E o da mama, na sua maioria e desde que devidamente acompanhado e tratado, passa à classificação de crónica.

Haja saúde para o resto, possibilidades financeiras para aguentar, opções de tratamentos para escolher e família para nos apoiar.

Nunca saberei se ao mudar o tratamento prescrito, que me levou a ter de mudar de equipa médica, foi a decisão certa ou não. No entanto, isso não é relevante. Estou grata a todos os médicos que me acompanharam e aos que atualmente me acompanham.

O que para mim me importa é saber que tenho uma oportunidade nova de vida que não quero, de todo, desperdiçar. E quero ser Rainha do meu tempo. Quero ser eu a comandar a vida enquanto puder. Quero envelhecer feliz e bonita por dentro e por fora. Quero aprender mais sobre tudo, percorrer mundo, explorar o espaço e descer às profundezas do oceano. Há tanto para ver, tanto para explorar e tanto para sentir. E muitas vezes nem precisamos de sair de casa.

Parte V – Conclusão

Para quem não tem cancro, que esteja atento aos sinais do corpo e não descure os exames periódicos.

Para quem está a passar por uma situação aguda, agarre-se à vida e à esperança, lutando por uma vida de qualidade.

Para quem tem cancro e já passou o pior, obrigada pela força e vontade de viver dando continuidade à sua existência. O importante não é como morremos. O importante é como vivemos.

Obrigada Vida. Conto ainda por cá andar neste mundo tanto tempo quanto o que já passou e tudo farei para que seja útil e próspero.

Fotografia: DR