Cuidado! A sua depressão pode ser uma anemia

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Considerada “epidemia oculta” e um “problema de saúde pública”, a anemia atinge, em algum vida, um em cada cinco portugueses, com especial incidência sobre as mulheres, os jovens, os idosos e as grávidas. Causa de muitas doenças, facilmente é mascarada. A depressão, por exemplo, pode ser, afinal, falta de ferro.

“A anemia tem sintomas que estão escondidos, alguns tão curiosos como a depressão.” A frase é de João Mairos, ginecologista e obstetra do Hospital das Forças Armadas, que quer pôr não só a doença, como a carência de ferro na ordem do dia, em particular em grávidas e em mulheres que pretendem engravidar. E prossegue: “Muitas vezes, quando as pessoas estão anémicas e têm baixo ferro, que é uma espécie de pilha, andam mais em baixo. Se uma em cada cinco pessoas em Portugal tem anemia, então uma em cada cinco está em risco de estar mais cansado, menos dinâmico, com menos produção e concentração no trabalho, por isso, por vezes, depressões são anemias”, refere, considerando que “provavelmente psicólogos e psiquiatras podem não estar tão despertos” para esta realidade.

“Se uma em cada cinco pessoas em Portugal tem anemia, então uma em cada cinco está em risco de estar mais cansado, menos dinâmico, com menos produção e concentração no trabalho, por isso, por vezes, depressões são anemias”, afirma João Mairos, ginecologista e obstetra do Hospital das Forças Armadas

Porém, João Mairos quer dirigir os seus esforços noutro sentido, olhando mais para os ginecologistas e obstetras que “estão atentos para a parte da anemia na gravidez, mas é importante trabalhar mais para que estejam mais despertos para os níveis de depósitos de ferro [ferritina]”, que, sendo baixos, podem ficar comprometidos com uma gravidez.


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Isto porque a doença atinge muito mais mulheres do que homens. “A mulher é mais anémica que o homem”, vinca o especialista, acrescentando que “os doentes não reconhecem a doença (apenas dois em cada dez portugueses tem conhecimento do facto) e os próprios médicos têm uma noção subavaliada da anemia e dos depósitos de ferro”, afirma.

1 em cada 5 portugueses sofreu de anemia em algum momento da sua vida e, destes, 84% não sabe que tem a doença. Apenas 2% dos oito mil inquiridos estava a fazer tratamento na mesma ocasião em que foi feito o estudo

Os dados acima apresentados decorrem de um estudo que foi realizado a nível nacional e que foi apresentado esta quinta-feira, 17, pela Anemia Working Group Portugal (AWGP), organização presidida por António Robalo Nunes. A entidade quer pôr a doença em destaque e quer promover no dia evocativo, 26 de novembro, um rastreio da Anemia e Deficiência de Ferro quer em Lisboa, no Centro Comercial Colombo, quer em Gaia, no Arrábida Shopping. Ao mesmo tempo, a AWGP prepara-se para lançar a campanha “Uma saúde de ferro é uma saúde sem anemia” e conta com nomes como Sofia Nicholson, Heitor Lourenço, Leonor Poeiras e, entre outros, Ricardo Carriço e Jorge Corrula a dar a cara pela causa.

Uma em cada três pessoas tem deficiência de ferro

“A doença atinge 20% da população, valores mais elevados do que os que a Organização Mundial da Saúde preconizava para Portugal (15%)”, alerta o presidente, reiterando a necessidade de “cada pessoa, uma vez na vida, dever medir os seus níveis de depósitos de ferro”. Afinal, “uma em cada três pessoas tem ferritina baixa”, afirma este responsável, que sublinha que é através da medição deste parâmetro que se pode ficar a saber se uma pessoa pode ser propensa, face a uma qualquer interocorrência, à doença.

Ainda de acordo com o mesmo estudo, que contou com oito mil entrevistas a portugueses residentes em território continental e acompanhamento clínico, com idades compreendidas entre os 18 e os 90 anos, “os grupos de maior incidência da anemia são as mulheres, os idosos e as pessoas com idades compreendidas entre os 18 e os 34 anos”, refere Robalo Nunes.

“As mulheres são perdedoras crónicas de ferro”, sublinha Mairos, por via de “hemorragias agudas ou crónicas”, “fluxos menstruais abundantes e prolongados” e “gravidezes e lactação”. A doença atinge 20,8% do sexo feminino e 18,9% dos homens, indica a mesma investigação e que aponta para níveis de anemia na ordem dos 53,8% quando se refere à população feminina gestante. Ou seja, uma em cada duas mulheres grávidas sofre de anemia, que é – informa o ginecologista e obstetra – “o problema mais comum” entre as que esperam um bebé. Entre os fatores de risco – elenca o Mairos – estão “a dieta pobre em ferro, mulheres com depósitos de ferro baixos pré-gestação, enjoos e gravidezes gemelares, que estão aumentar devido aos tratamentos de fertilidade”.

Depósitos de ferro e poupanças no SNS

Prescrever a medição de ferritina pode custar cerca de cinco euros, segundo avança Robalo Nunes. Um custo que, justifica, facilmente é suplantado face aos gastos que são necessários fazer pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS) devido a doenças futuras. Mas não só: “Na prática médica diária pedem-se parâmetros analíticos dos quais se retira muito pouco e cujo custo cobriria a análise aos depósitos de ferro”, alerta Robalo Nunes. O presidente da AWGP é claro e fala na anemia como uma “epidemia oculta” e “um problema de saúde pública”.

João Mairos acrescenta: medir o parâmetro da ferritina “tem um custo, mas sei que é muito compensador a médio e longo prazo, porque quando as mulheres têm depósitos de ferro mais elevados, tem menos patologias e menos riscos de transfusões de sangue. Uma única transfusão justifica ‘n’ análises aos depósitos de ferro”, afirma.

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