O 25 de abril de 1974 visto por uma empregada interna de um agente da PIDE

Chamo-me Aida Veiga Santos, tenho 66 anos e estou reformada. Se calhar devo começar pelo princípio, pela aldeia. Nasci numa aldeia da Beira Alta. Fiz a escola primária e quando estava na quarta classe a minha mãe foi falar como a professora para eu sair da escola. Os pais podiam fazer isso na altura que não havia problema. Eu tinha de ir para casa cuidar dos meus irmãos mais novos. Éramos quatro miúdos e eu era a mais velha. A minha mãe saía de casa para ir trabalhar e eu ficava tomar conta deles, a fazer a comida, a cuidar da casa.
Também cuidava do meu pai, o meu pai era aleijado, tinha as mãos tolhidas, dobradas sobre si mesmas. Não tinha diagnóstico, não havia médicos que o seguissem na altura. Eu acho que era epilepsia, porque o meu pai tinha ataques. Lembro-me de ser eu a dar-lhe de comer. Depois o meu pai morreu quando eu tinha doze anos.
E então a minha mãe entregou-me a uma comerciante de calçado de Celorico da Beira. Eu estava lá a servir, morava na casa dela e andava de feira em feira com a família. Íamos à Guarda, a Pinhel, a Figueira de Castelo Rodrigo. O meu trabalho era tirar os sapatos das caixas e arrumá-los sobre a lona para os podermos vender. Um sapato ficava dentro da caixa e outro de fora. Eu não apregoava os sapatos. Era assim caladita. Arrumava e desarrumava tudo para por dentro da carrinha os sapatos. Estive com esses senhores até uns tios de Lisboa me trazerem para cá. Havia maus tratos, mas na altura era normal.
Fui viver e trabalhar com esses senhores porque a minha mãe viu-se sozinha com muitos filhos e muitas vezes trabalhava, levava os filhos e o que lhe pagavam era comida para todos. A minha mãe trabalhava a dias e no campo. Nós tínhamos a nossa casa e alguns terrenos que eram do meu pai e ainda assim não chegava.
Os meus tios trouxeram-se para Lisboa e estive numa fábrica de carnes a lavar tripas, em Odivelas. Tinha na altura 17 anos. E foi depois de ficar sem esse trabalho que fui servir para casa da Senhora Mariazinha. Estive com ela até ter 26 anos. Sai para casar. Era empregada interna como se diz agora. Era uma família boa. Tinham duas casas, uma no Areeiro, em Lisboa, e outra no Estoril. Eu andava sempre com a família, para onde eles fossem eu ia.
Eu tinha direito a uma folga de 8 em 8 dias e havia muitas vezes que nem saía. Ia visitar os meus tios em Odivelas, quando a minha tia ligava a pedir que eu fosse. Eu ia sozinha e a senhora ligava para a casa dos meus tios e pedia para falar comigo. Queria ter a certeza que eu estava mesmo lá. Acho que me queria controlar, sim, mas porque gostava de mim.
Quando veio o 25 de abril, percebi que o meu patrão era da PIDE. Como viu que estavam todos os colegas estavam a ser presos, para não ir para a cadeia, passado dois ou três dias comprou bilhetes de avião para a Madeira para a família toda, para mim também. Fui a encargo deles e vim com eles. Através de conhecimentos sabiam que lá não ia acontecer nada ao senhor e então alugaram uma casa por um ano. Eu estive sempre com eles. Nunca me apercebi que estivessem mais agitados ou com medo, mas as coisas eram muito separadas. Eu era a empregada e havia conversas que não tinham à minha frente.


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Um ano depois voltámos para Lisboa e acho que o senhor se reformou porque nessa altura deixou de sair todos os dias para ir trabalhar. Mas a vida corria normalmente, nunca apanhámos sustos. Eu também não ligava muito à política. A minha vida era trabalhar, se calhar por isso não notei muitas diferenças.
A minha vida mudou quando me casei, por vontade do meu irmão, com um amigo dele. Isso ainda fiz como antigamente. A minha mãe também tinha casado por arranjo dos pais. Antigamente era assim. As raparigas não tinham nada a dizer. As pessoas viviam com muita pobreza e o casamento era às vezes uma maneira de sair da pobreza. As mulheres tinham uma vida negra. Agora está muito diferente. Ainda bem.
Já não há aquela pobreza que havia lá na terra. Não havia luz elétrica, nem esgotos, nem água canalizada. Não havia médico para toda a gente. Era preciso pagar. Eu tenho um problema nas pernas desde a nascença e se fosse hoje, de certeza que não tinha ficado assim, com as pernas arqueadas. Não havia dinheiro para nada. Havia era fome. Hoje está tudo muito diferente.

(Imagem de destaque Shutterstock)

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