Esta é a mulher que fez frente a Trump e foi demitida

[Fotografia: Twitter]

Procuradora-geral, 56 anos, uma mulher do terreno e, apesar de discreta, nunca deixou de dar a sua opinião: fosse sobre a criminalidade no mundo da droga, fosse sobre a corrupção. Agora, Sally Yates veio a público dizer que, enquanto fosse procuradora-geral, o Departamento de Justiça norte-americano não iria “apresentar argumento em defesa da ordem executiva” de Donald Trump, relativa à proibição de entrada de refugiados e outros viajantes de países muçulmanos. Esta procuradora-geral interina declarou ter instruído os advogados a não cumprir a ordem.

A atitude de oposição frontal tomada por esta mulher valeu-lhe a destituição imediata por parte do presidente dos Estados Unidos da América.

Trump alegou que Sally Yates “traiu o departamento de Justiça, por recusar fazer cumprir uma ordem que pretende proteger cidadãos norte-americanos”, escreveu a presidência em comunicado.

Sally Yates, ex-procuradora-geral demitida, e Dana Boente, sucessor no cargo [Fotografia: Twitter]
Sally Yates, ex-procuradora-geral demitida, e Dana Boente, sucessor no cargo [Fotografia: Twitter]

Não foi preciso muito para encontrar um substituto que aceitasse cumprir esta polémica ordem de Trump. A escolha para o cargo de procurador-geral interino dos EUA recaiu sobre Dana J. Boente, com 62 anos, um dos magistrados que esteve na linha da frente em processos contra a corrupção política e foi um dos procuradores que fez entrevistas e participou na investigação no caso dos e-mails de Hillary Clinton.

Sally Yates: a “heroína” dos republicanos que Trump acusou de “traição”

Nomeada vice-procuradora-geral, por Barack Obama – então presidente – em 2010, Sally Yates subiria, cinco anos depois, no cargo e tornava-se na primeira mulher a ocupar o posição de procuradora-geral.

[Fotografia: Twiiter]
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Curiosamente, quando Donald Trump entrou na Casa Branca, a 20 de janeiro, pediu-lhe para permanecer no lugar – reiterando a confiança nela – até que o Senado desse aval final sobre o novo magistrado para o cargo [senador Jeff Sessions] . E ela aceitou.

Mais: os republicanos pareciam tão à vontade com esta escolha que falaram de Yates – membro do partido democrata – pública e recentemente como “heroína” e descreveram-na com uma “integridade impecável”.

Porém, o volta-face do presidente dos EUA depois de ela se ter publicamente oposto à medida anti-imigração deitou por terra o voto de confiança. Na segunda-feira à noite, ela própria entregou em mão na Casa Branca uma carta onde declarava rescindir a sua carreira como procuradora no Departamento da Justiça, que começou em 1989.

Cinco anos depois, Yates tornava-se chefe da secção de Fraude e Corrupção Públicas. “Ela é extraordinariamente talentosa e tem uma solução para todos os problemas”, afirmou o ex-diretor do FBI. Louis J. Freehsaid tinha declarado ao The Washington Post, em 2014, que os “seus maiores fãs eram os agentes de rua do FBI, os agentes da DEA, os inspetores postais e os serviço secretos”. Discreta, conta o mesmo antigo responsável que Yates prefere “estar escrever um memorando de condenação do que dar uma conferência de imprensa”.

Os crimes de fraude de colarinho-branco e corrupção política sempre estiveram debaixo de olho desta procuradora, natural de Atlanta. No ano passado, Sally Yates mostrava-se dura com este tipo de criminalidade.

“As nossas acusações demonstram ao mundo que os EUA não permitirão que empresas suas – ou as que estão cotadas em bolsa – tomem decisões que sejam corrosivas para o exterior”. “Os danos causados pela corrupção – referia ainda – são tão reais em Angola e no Azerbaijão como aqui, em Atlanta ou Albuquerque, e é a nossa obrigação fazer avançar o Estado de Direito até onde as nossas leis de apliquem”.

Na década de 90, Yates ganhou visibilidade ao trabalhar no caso do fundamentalista católico Eric Rudolph, que se confessou culpado por vários ataques bombistas motivados por convicções antiaborto e anti-gay e foi condenado por quatro penas de prisão perpétua. Rudolph, recorde-se, também perpetrou, em 1996, um atentado em Centennial Olympic Park, durante as cerimónias olímpicas que decorreram em Atlanta. “Ela fez um trabalho fenomenal”, considerou o ex-diretor do FBI Louis J. Freeh.

Sally Yates com novos agentes do FBI [Fotografia: Twitter]
Sally Yates com novos agentes do FBI [Fotografia: Twitter]

Também a sua perspetiva sobre a criminalidade não violenta lhe deu visibilidade. Yates afirmou que um dos objetivos da sua procuradoria passaria por pedir clemência para aquele tipo de acusações e que estivessem relacionadas com droga.

“Essas políticas foram promulgadas numa altura [1980 e 1990] em que se deu a explosão de criminalidade e de graves problemas relacionados com crack. Mas, atualmente, as coisas mudaram e as taxas de crime com violência baixaram dramaticamente”, referiu em 2015.

Sally Quillian Yates é casada com o advogado e diretor executivo da Atlanta Speech School, Comer Yates. O casal tem dois filhos: Kelley Malone Yates e James Quillian Yates.

Dana Boente: “Direcionar os homens e as mulheres […] a defender as ordens legais do nosso Presidente”

Mal saiu a nomeação, Boente não perdeu tempo a posicionar-se favorável ao controverso diploma aprovado por Trump na sexta-feira, 27 de janeiro, segundo o qual proíbe a entrada de todos os refugiados por um período mínimo de 120 dias – e de refugiados sírios indefinidamente -, e a de cidadãos de sete países muçulmanos por 90 dias: Irão, Iraque, Líbia, Somália, Sudão, Síria e Iémen.

“Com base na análise do Gabinete de Assessoria Jurídica, que concluiu que a ordem executiva é legal (…) e foi adequadamente elaborada, rescindo a antiga procuradora-geral interina Sally Q. Yates, a 30 de janeiro de 2017, guiando e direcionando os homens e mulheres do Departamento de Justiça a cumprirem o nosso dever e defenderem as ordens legais do nosso Presidente”, disse o novo procurador-geral interino.

Boente foi nomeado para o cargo depois de Trump ter despedido Sally Yates, que transitou da administração de Obama e ocupava o lugar enquanto o novo procurador, Jeff Sessions, não era confirmado.


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Recorde-se que o diploma de Trump gerou contestação e oposição um pouco por todo o mundo e levou, durante sexta-feira e ao longo de todo o fim de semana, norte-americanos às ruas e aos aeroportos, protestando contra esta ordem.

Também Barack Obama, ex-presidente dos EUA, decidiu quebrar o silêncio e pronunciou-se sobre as medidas anti-imigração.

O ex-governante, sem nunca referir a ordem de Trump, “discorda fundamentalmente com a noção de discriminar indivíduos por causa da sua fé ou religião”.

Numa declaração dada pelo porta-voz de Obama, Kevin Lewis, o antigo presidente dos EUA, considerou que “os valores americanos estão em risco”, pelo que é expectável que “os cidadãos exercitem o seu direito constitucional de se reunirem, organizarem e fazerem-se ouvir pelos seus representantes eleitos”.

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