Sofana Dahlan: “Uma mulher financeiramente independente tem uma voz, tem uma opção”

Sofana Dahlan está em Portugal para participar nas Conferências do Estoril, que decorrem nos primeiros três dias desta semana. Na terça-feira, é uma das oradoras do painel ‘A economia das migrações’, dedicado a discutir o impacto no emprego e nos salários, tanto nos países de origem, como nos Estados que acolhem as populações em fuga.

Sofana Dahlan está presente nesta conferência como representante do Reino da Arábia Saudita, um país com dados contraditórios no que toca ao acolhimento de refugiados. Acusado durante 2015 pelos meios de comunicação social ocidentais de não receber as populações em fuga, o governo de Riade reagia a essas notícias afirmando que desde o início do conflito na Síria tinha recebido 2,5 milhões de pessoas, a quem foram dados vistos de residência permanente e direitos sociais idênticos aos dos habitantes locais.

Sofana Dahlan é saudita e foi a primeira mulher a licenciar-se em direito naquele país. É incontornável fazer-lhe perguntas sobre os direitos das mulheres. Ela própria se coloca nesse papel nas conferências que tem dado pelo mundo e em que fala, normalmente, das mudanças que estão a acontecer no país natal. Num país onde elas ainda precisam de tutores legais para se fazerem representar em todas as áreas do direito, ou em que as mulheres e nunca podem andar sozinhas na rua e muito menos com o corpo descoberto, é justo que se veja como um grande avanço a autorização do voto feminino para as eleições municipais, conforme se assistiu em dezembro de 2016.

Apesar de aparecer de cabelo tapado nos cartazes que divulgam as Conferências do Estoril, a mulher que se apresenta aos jornalistas para dez minutos de entrevista com cada um não podia parecer mais ocidental. Sofana Dahlan tem o cabelo curto, à tigela e assimétrico, veste um fato branco e calça sapatos de salto alto. Há de dizer várias vezes na entrevista que a modéstia é um valor interior.

Como é que a Sofana Dahlan se descreve?

Gosto de me descrever com os papéis que desempenho. Primeiro, sou uma filha, depois uma irmã e depois tia. Adoro gelados, óculos em forma de olho de gato e a cor lilás. Sou advogada, tenho duas empresas sociais que promovem indústrias criativas e recentemente fui contratada para ser vice-governadora da Autoridade para as Pequenas e Médias Empresas de Comunicação. Na Arábia Saudita, há quatro mulheres em diferentes ministérios, com chefias de segunda linha, como eu.

Como é que se tornou ativista pelos direitos das mulheres?

Eu era uma alma perdida, não sabia o que queria ser quando crescesse. Mas a certa altura da minha vida quis saber quem é que tinha dado mais direitos aos meus irmãos do que a mim. Decidi estudar direito para responder a essa pergunta. Descobri que não tinha sido nem o meu pai, nem o rei, nem a lei, nem a religião. Descobri que Deus nos deu direitos iguais, por sermos todos humanos, que nos deu capacidades por igual para praticar os nossos deveres e nos deu responsabilidades semelhantes para promover o desenvolvimento sustentável da terra. Nunca vi escrito mulher ou homem. E eu olhava para mim com os pressupostos de outros, com a premissa de uma sociedade muito dominada pelos homens. Quando me comecei a libertar disso, comecei a ver o ser humano bonito que Deus instalou em mim.

O seu discurso é raro. Porque é que não ouvimos mais pessoas oriundas da Arábia Saudita ou de outros países muçulmanos a defenderem a igualdade entre homens e mulheres?

As sociedades evoluem de forma gradual. A Arábia Saudita tem pouco mais do que 100 anos [a guerra de conquista do território começa em 1902] e é controlada por tradições, por tradições tribais. A forma como se olha para a vida é da perspetiva das tradições e não do ponto de vista da religião. As religiões normalmente não dão direitos às pessoas, instauram valores. Os valores precisam de evoluir e nós precisamos de nos manter fiéis aos valores. A modéstia, por exemplo, é um valor importante e precisamos de nos agarrar a ela. Mas não precisamos de nos agarrar à forma como interpretamos a modéstia. Creio que ainda não aprofundámos dos valores. Creio que ficámos pela superfície.

Como é que descreve a condição feminina na Arábia Saudita, atualmente?

Temos sorte. Quando eu me formei em direito, embora eu tenha tido uma autorização especial para estudar, fui a primeira a fazê-lo numa altura em que as mulheres não tinham permissão para estudar direito. Estávamos em 2000. Só em 2013 é que eu tive uma licença para exercer direito… foram 13 anos à espera. Mas quando olho para outros países e para os processos de emancipação das mulheres vejo que demoraram por vezes cem anos a conseguir a igualdade. O que está a acontecer na Arábia Saudita está a acontecer no meu tempo de vida. Eu vejo as mudanças e consigo prever o futuro das minhas duas filhas. É possível tocar o futuro, perceber como é que vai ser a Arábia Saudita em 2030.

Faltam 12 anos. Consegue fazer o retrato do futuro do seu país?

Creio que vamos ter mulheres como ministras, como embaixadoras, vamos ter mulheres a viajar sem um tutor. Vamos ter tudo isso dentro da moldura do apreço pela nossa identidade cultural.

Por que razão é que acha que estas mudanças estão a acontecer – o voto das mulheres nas eleições municipais, a Comissão para os direitos das mulheres? Quem é que iniciou este processo?

O rei Abdullah começou a patrocinar estas mudanças, agora o Rei Salman está promover mudanças também, os príncipes também. Contudo, é a necessidade. O mundo está a mudar e vivemos num mundo sem fronteiras. O cibermundo não se compadece das fronteiras terrestres. Eu hoje sou capaz de comunicar com os meus amigos, em todo o mundo, usando apenas uma língua. Hoje é impossível obrigar as pessoas a cumprirem as condicionantes do passado.

Toda a gente na Arábia Saudita tem hoje os mesmos direitos de acesso à internet?

Não. Há sites que estão banidos. Mas a maioria é avaliado e recebe uma nota numa escala. Há sites politicamente sensíveis.

As mulheres são ativas protagonistas destas mudanças de que está a falar?

Sim. Hoje há muitas mulheres como eu e melhores do que eu. Costumamos dizer que a mão que embala o berço embala o mundo, por isso, mesmo que as mulheres ainda não estejam presentes nos negócios e na política elas continuam a ser agentes de mudança através das suas famílias. A minha avó, há muitos anos, disse-me uma coisa muito interessante: “Os passos da mulher que tem moedas nos bolsos soam de forma diferente do que soam os passos da mulher que não tem dinheiro”. Percebi, já era adulta, que este provérbio significa que uma mulher financeiramente independente tem uma voz, tem algo a dizer, tem uma opção.

Já falámos sobre a modéstia, vejo que hoje não usa hijab. Por que razão?

Eu uso hijab. Para mim o hijab tem um significado profundo. Hijab significa barreira e para mim a barreira está nas minhas ações. Eu coloco uma barreira para não magoar os outros, para me portar de uma forma decente, para não mentir. Por outro lado, o hijab que é usado por mulheres significa modéstia e a modéstia é interpretada de formas diferentes. O que eu uso – a habaya – uso por causa da tradição e adoro. Hoje não me vê com a habaya mas amanhã pode ver e não muda quem eu sou como muçulmana.

Como é que vê a questão do hijab na Europa? Para alguns europeus é difícil aceitar a utilização do hijab porque parece um sinal de desigualdade das mulheres e estamos num espaço político onde os direitos das mulheres estão, como disse, a ser reivindicados há muitos anos.

Devia ser deixado ao critério de cada mulher. Se ela se sentir confortável com o hijab ela deve usá-lo, se não se sente confortável devemos respeitar a sua escolha. Mas é preciso que se saiba uma coisa: o Islão não argumenta claramente que as mulheres devem cobrir a cara. Em Meca, quando estão a rezar lado a lado, homens e mulheres, estas têm o dever de ter os rostos destapados. Têm esse dever. Depende da interpretação. A modéstia não quer dizer, nunca, cobrir-se completamente ou cobrir-se mais ou menos. Modéstia quer dizer vestir-se de forma apropriada, que mostra dignidade e respeito.

E como é que via se as mulheres europeias que vão à Árábia Saudita escolhessem não usar hijab?

Na Arábia Saudita é uma lei, portanto deve olhar-se para a utilização do hijab da perspectiva da regulamentação e da lei. E é importante usar a roupa como está definido. É como ir a um restaurante que diz fato e gravata e por isso não se pode entrar de calções. É preciso pensar nisso da mesma maneira.

São dois pesos e duas medidas?

Sim. É a lei. E no final do dia, se me pedem para usar algum tipo de roupa eu uso, simplesmente, para respeitar a cultura daquele povo.

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