Mãe e filha: eternas cúmplices ou rivais?

Sofia (nome fictício) tem 31 anos e não tem memória de uma relação descomplicada com a sua mãe. Na sua opinião, a discórdia começou quando ainda era criança. “Fui filha única até aos 5 anos e, sim, era bastante mimada pela minha família em geral, sobretudo pelo meu pai, que me fazia todas as vontades. No entanto desde sempre tive a sensação de existir alguma tensão entre mim e a minha mãe, talvez por ser com ela que passava a maior parte do tempo.” Sofia recorda que a situação se agravou quando nasceu o seu irmão mais novo. “Notei que a minha mãe, ainda que sem má intenção, passou a centrar todas as atenções, todos os mimos no meu irmão, e a repreender-me em tudo o que fazia. Senti-me um pouco «abandonada» e, claro, também comecei a prescindir de cultivar uma relação próxima com ela. Até hoje continuo a ser muito mais próxima do meu pai, e sinto que há um fosso entre nós sempre que estamos juntas. Tenho imensa pena, já que algumas das minhas amigas têm na mãe o seu pilar, e isso não acontece comigo.”


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Rita Botelho Moniz explica também de que forma inconsciente ambos os elementos vão moldando a sua convivência ao longo dos anos. “Para uma criança, a mãe é o seu espelho, é com ela que afere os seus estados afetivos de bem-estar, prazer, frustração, raiva… Uma criança nasce com competências e características próprias, sendo que é a partir da combinação destas com os cuidados da mãe que vai construir a sua vida afetiva e relacional. A mãe é o principal modelo de identificação para a menina, e é sobretudo na relação com esta figura que se constrói a sua identidade feminina. Isto e a relação conjugal e amorosa entre a mãe e o pai fazem com que a rapariga queira ser igual à mãe para se afirmar na sua identidade feminina e para conquistar a atenção/afeto do pai (o famoso complexo de Édipo). São processos de rivalidade inconsciente que introduzem tensão na relação entre ambas e, em função das características de personalidade, por vezes desencadeiam-se verdadeiras batalhas emocionais interiores que duram até se consolidarem os processos maturativos.”

Mãe amiga ou mãe controladora?

Por vezes, e sobretudo em idades ou fases mais difíceis, é a filha quem se “afasta” da mãe, erguendo-se por vezes uma barreira emocional entre ambas. Nestes momentos, o desafio diário de manter a paz pode ser exaustivo para quem se sente alvo das frustrações do outro. “Ser o alvo da projeção das inseguranças, desejos inadiáveis, provocações, etc., de uma filha constitui um verdadeiro teste à resistência e limites de uma mãe, numa tarefa que se torna um verdadeiro desafio para ambas. A tarefa principal nesta fase consiste em conseguir manter a sua função maternal, dando carinho e suporte afetivo, contendo a tristeza, mas também ser capaz de marcar os limites. A mãe deve tentar não agir por impulso em resposta a estas «provocações», tentando estabelecer um diálogo pedagógico e construtivo. A filha deve ser ajudada a refletir nas suas atitudes incorretas e injustas, numa tentativa de reparar alguns comportamentos com atitudes construtivas e de reconhecimento dos seus erros. Quando a tensão relacional interfere com o bem-estar e equilíbrio individual e familiar, mãe e filha devem procurar o apoio de um profissional de Psicologia”, explica a especialista, que destaca ainda as diferenças entre a relação entre mãe e filha e mãe e filho. “Pela influência de fatores biológicos e culturais atribuem-se diferentes funções à identidade masculina – de proteção, diferentes papéis sociais – o que pode levar a que a dinâmica nesta díade, mãe-filho, não seja marcada por uma tensão tão exuberante.”

Perante a dificuldade em lidar com as filhas, muitas mães põem em causa as linhas de comportamento pelas quais se regem na educação dos seus. Mais permissividade, menos tolerância, mais controlo? Afinal, qual a postura ideal de uma mãe perante uma filha? Rita Botelho Moniz considera que “uma mãe estruturante e organizadora não deve ser nem amiga, nem autoritária nem controladora. Deve ter uma presença que dá afeto, apoia, esclarece, organiza, faz respeitar as regras e limites, sem ser controladora e intrusiva. Aceita o crescimento e autonomia dos filhos, respeitando a construção da sua rede afetiva e relacional, mantendo-se próxima e disponível.”

A mãe, um exemplo a seguir… ou não?

É comum, e inevitavelmente humano, haver da parte da mãe alguma expectativa em ver a filha seguir-lhe os passos, ou partilhar os mesmos gostos e preferências. Mas será que as filhas tomam automaticamente as mães como exemplo em todas as áreas da sua vida? E quando assim não é, poderá a mãe ressentir-se, ainda que de forma inconsciente, deste “afastamento”? Rita Botelho Moniz acredita que sim, mas afirma que tudo faz parte do desenvolvimento natural da menina-mulher. “Regra geral as filhas têm na mãe um modelo relacional que interfere nas suas escolhas, na forma como se projetam no futuro, mas este modelo não se esgota na mãe. Outras figuras privilegiadas na vida da rapariga contribuem também para a construção da sua identidade: mulheres da família, professoras, outros modelos próximos… Sendo que é a própria personalidade da jovem que está no centro de toda esta complexa «construção», e que em grande parte corresponde a processos inconscientes. Tudo isto é inerente ao crescimento e à construção da identidade e autonomia de um filho, havendo um período de afastamento entre ambos rumo à maturidade. É frequente que alguns sentimentos de tristeza e perda possam também estar associados a este processo”, não havendo, no entanto, motivo para preocupação.

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