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Por que é que casar acaba com o sexo?

Por que é que casar acaba com o sexo?

Há quem diga que a líbido esmorece, que o interesse desaparece, que a vontade fenece, mas será o casamento o verdadeiro responsável pelo fim do sexo nas relações? Não faltam relatos de vidas sexuais excitantes antes do “sim, aceito”, ou mesmo nos tempos em que a ideia de vida em comum ainda não foi concretizada. As histórias começam quase sempre do mesmo modo: uma atração fulminante, uma sexualidade diversa, constante, primorosa, até que o casamento ou a vida em comum se divertem a desfazer aquilo que a natureza e o desejo construíram. Será que a intimidade e o doméstico matam a vida sexual dos casais?

São cada vez mais as histórias que dão conta de casamentos sem sexo. Ou então, são cada vez mais as pessoas que assumem estarem numa relação sem essa argamassa. Isto porque, antes da pílula, não ter sexo era uma forma legítima e não problemática de os casais não terem filhos. Além disso, não era suposto que as mulheres gostassem de sexo ou que os casais infelizes (menos propensos a uma vida sexual satisfatória) se divorciassem, factos que convergiam para que os casamentos não contemplassem a sexualidade.


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Hoje em dia, os casais ou nunca tiverem uma frequência sexual assinalável ou registam um decréscimo no sexo em termos conjunturais: nascimento de um filho, má fase profissional, problemas financeiros, motivos de saúde. Para umas pessoas, o desinteresse instala-se quando se habituam ao parceiro e o lado doméstico da vida se acomoda na cama; para outras, são as exigências de criar uma família, de se estabelecerem profissionalmente, o que faz com que a drive sexual abrande ou desapareça. É provável ainda que, individualmente, lutem com culpas, preconceitos ou experiências mal sucedidas ou mesmo traumáticas que as levem a descartar o sexo uma vez estabelecida a relação.

A questão da felicidade
Independentemente das razões, a questão que fica é óbvia: os casais que têm sexo são mais felizes que os casais que não têm sexo? Há estudos que apontam em direções diferentes mas a maioria parece aceitar que sim, que o sexo é uma das razões ligadas à felicidade dos casais, embora afirmem também que não é a única forma de intimidade entre eles. Posto isto, qual é a frequência necessária para esse nível de contentamento a dois? Não existe um número que sirva a todos de igual modo. O que existe é aquilo que ambos consideram satisfatório, seja uma vez por dia ou uma vez por ano.

Mas para que essa medida possa ser estabelecida, é necessário que os casais falem, comuniquem, e é aqui que, tantas vezes, as relações começam por falhar, no modo como cada um se fecha em si mesmo quando o assunto é falar sobre o que sexualmente se deseja, como se quer e de que modo isso contribui para a pessoa sexual que quer ser. Essa falha em comunicar leva, a mais das vezes, a um desencontro emocional que desemboca num desencontro sexual.

É difícil reconstruir a sexualidade
Posto isto, é possível recuperar uma relação que não tem sexo no seu cardápio? Denise Donnelly, da universidade da Georgia, há anos que estuda o tema e afirma que é muito difícil reconstruir uma ligação entre duas pessoas que há muito não são sexualmente íntimas. Não pelo lado do sexo feito, mas pelo facto de terem estabelecido um padrão de não comunicação que acaba quase sempre por gerar mágoas, raivas, tristezas difíceis de ultrapassar. A mesma investigadora afirma ainda que, de acordo com os relatos dos casais em estudo, anos depois do fim da investigação, os mais felizes são aqueles que acabaram por se divorciar e iniciaram uma relação (também sexual) com outros parceiros.

Em suma, é palavra corrente e comum que o ideal é não deixar que o sexo termine de todo, a não ser que ambos os parceiros o queiram ou vivam bem com isso. De outro modo, se um ou ambos estiverem infelizes, o ideal será tratar do assunto antes que ele se torne num problema insanável. E fazê-lo pode significar, para uns, um fim de semana fora, para outros, uma intervenção mais especializada com um terapeuta. Certo é que, seja qual for o caso, o elemento que perpassa todas as conjunturas é a necessidade de comunicar, cabalmente, aquilo que se deseja, ou não deseja. É quando isso se quebra, quando se perde a capacidade de verbalizar confiando que o outro vai sempre entender o estado de espírito do parceiro, que os enganos e os desencontros começam.

O sexo numa relação longa não vive tanto de imprevistos e de vontades do momento. Trabalhá-lo, observá-lo, estudá-lo pode ser aquilo que define a presença do sexo no casamento.

Sílvia Baptista